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A vela que se torna cada vez mais intensa ao iluminar outros caminhos

  • Foto do escritor: Elaine Silva
    Elaine Silva
  • há 1 dia
  • 9 min de leitura

A personagem desta edição do Pegadas do Yoga é nada menos que Ana Lugh, diretora pedagógica da YogaNaya International School. Tentar condensar em algumas linhas a força da natureza que é Ana não é tarefa simples. Ela é uma mulher múltipla, inquieta e dona de uma trajetória repleta de histórias que inspiram. Foi minha mentora durante os nove meses da formação em yoga e, ainda assim, tenho a sensação de ter  conhecido apenas a ponta do iceberg.



Entrevistá-la para esta matéria foi como atravessar um portal do tempo. À medida que ela compartilhava sua jornada, fui encontrando pontos de conexão com a minha própria história. Quando nossa conversa terminou, uma imagem insistia em permanecer comigo: a do fogo que ilumina sem jamais se consumir. Talvez tenha sido justamente essa imagem que me levou a compreender por que é tão difícil traduzir Ana em poucas palavras.


Na mitologia grega, Prometeu desafia os deuses ao entregar o fogo à humanidade. Mais do que uma chama física, ele oferece conhecimento, consciência e a possibilidade de transformação. Esse mesmo símbolo atravessa diferentes tradições: uma tocha acende outra, uma vela ilumina outra vela, e nenhuma perde sua própria luz ao compartilhá-la. Pelo contrário, quanto mais chamas se acendem, mais claro se torna o caminho. Talvez seja por isso que seja impossível resumir Ana em uma única primeira impressão. Assim como a luz de uma chama revela, aos poucos, aquilo que antes permanecia na penumbra, ela foi se revelando para mim a cada encontro, em diferentes facetas, todas iluminadas por essa mesma capacidade de despertar o outro.


No primeiro módulo, conheci a mestra que disciplina com intensidade, algo que, num primeiro momento, me assustou, mas que, ao mesmo tempo, me trouxe a consciência da importância do compromisso que eu estava assumindo. Depois, descobri a professora que conduzia o grupo de estudos, instigando reflexões e compartilhando conhecimento; a mentora com quem aprendi a acreditar nas possibilidades do corpo e a enfrentar o desafio dos ásanas. Mas, de todas as primeiras impressões que tive dela, a que mais permaneceu no meu coração foi o seu olhar encorajador na minha primeira experiência à frente da sala de aula. Um azul profundo e magnético que me dizia, sem palavras: "Vai, querida. Eu acredito em você."


Onde tudo começou


Formada em Administração de Empresas e pós-graduada em Neurociência e Comportamento Humano, Ana estudou e vivenciou o yoga na Índia, o seu lugar no mundo. Mas, para entender o desenrolar dessa história, é preciso voltar no tempo e encontrar sua versão criança. Da menina tímida, nascida em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, à mentora que hoje inspira e magnetiza postulantes a professores, a jornada foi longa. Mas não foi um caminho qualquer: foi, sobretudo, uma jornada para dentro.



Filha mais velha de pais muito jovens, a mãe tinha apenas 15 anos e o pai, 19, quando ela nasceu, cresceu em um ambiente onde amadurecer cedo parecia fazer parte da vida. Na adolescência, era inquieta e curiosa. Experimentou esportes, dança, música e encontrou no trabalho uma responsabilidade precoce. Aos 14 anos, começou a ajudar na boutique da mãe e, após a separação dos pais, que anos mais tarde reataram, e a mudança para Campo Grande (MS), passou a trabalhar em diferentes atividades para complementar a renda, experiências que fortaleceram sua autonomia.


Sem ainda imaginar que o yoga faria parte de sua vida, escolheu cursar Administração de Empresas pela amplitude de possibilidades que a profissão oferece. Pouco depois, um convite de uma tia médica a levou para a área da saúde. Antes mesmo de concluir um outro curso que estava fazendo na área de instrumentação cirúrgica, foi contratada por uma multinacional e passou anos atuando na área comercial. Ana vendia produtos cirúrgicos e era responsável por treinar equipes médicas para o uso de novas tecnologias.


Foi nesse período que realizou outro antigo desejo: mudou-se para São Paulo. A mudança também impulsionou sua carreira, e ela passou a atuar nos principais hospitais da capital. A rotina nos centros cirúrgicos lhe proporcionou uma formação profissional intensa e o contato diário com equipes multidisciplinares, tecnologia e de tomada de decisões. "Era um universo fascinante. Só quem trabalha ali dentro consegue entender a complexidade daquele ambiente", relembra.


O ser humano no centro


Nesse ponto da entrevista, notei que o yoga já fazia parte dela, mesmo antes de ela saber. No mundo corporativo das metas, dos números e da performance, Ana já enxergava o ser humano diante da vulnerabilidade, e isso a preparou para o papel que exerce hoje.



Sempre na guiança


"O centro cirúrgico sempre foi um lugar muito sagrado para mim. Um lugar de cura. As pessoas chegam ali carregando medo, vulnerabilidade e a expectativa de recomeçar. É impressionante pensar que elas entregam a própria vida nas mãos de alguém confiando apenas na competência daquele profissional."


Ao trabalhar lado a lado com alguns dos maiores cirurgiões do país, ela também teve contato com diferentes formas de liderança, convivendo tanto com a excelência técnica quanto com os desafios do ego. A intensidade da rotina hospitalar moldou a forma como Ana passou a enxergar as relações humanas. Em meio à pressão dos centros cirúrgicos, aprendeu que o controle emocional pode ser decisivo em situações críticas e desenvolveu a habilidade de lidar com pessoas difíceis e grandes egos.


Workaholic assumida, vivia de sobreaviso, sem rotina e pronta para atender chamados a qualquer hora do dia ou da noite. "Eu adorava esse fluxo. Meu maior combustível era trabalhar para ganhar dinheiro e poder viajar", relembra.


Viagens pelo mundo como compensação da rotina de trabalho


Algumas histórias são de amor. Outras são de destino.


Em meio à intensidade da carreira no mundo corporativo, Ana reencontrou Guima, um conhecido de muitos anos. Ambos separados e cada um com uma filha na bagagem. Para ela, o tempo teve um papel essencial nessa história. "Acho que a vida nos preparou para esse encontro", diz.


Ana e Guima pelo mundo


Enquanto Ana vivia mergulhada em metas, plantões e jornadas exaustivas, Guima vinha de um universo completamente diferente: era diretor de fotografia em cinema. "Ele apareceu para equilibrar meu lado workaholic. Era quem dizia: 'Calma... não precisa de tanto'."


Entre centros cirúrgicos e sets de filmagem, ela descobriu dois mundos que passaram a coexistir em sua rotina. "Eu saía do hospital e ia para o set, onde o tempo parecia parar."

Unidos pela curiosidade de conhecer o mundo, transformaram as viagens em um ritual do casal. Já visitaram 37 países e, até hoje, preservam um acordo inegociável: sempre reservar um tempo só para os dois. "É o nosso momento de descobrir coisas juntos e de nutrir o relacionamento. Isso foi muito importante em toda a minha jornada."


Mais do que um companheiro, Guima tornou-se o contraponto que a vida colocou em seu caminho: razão e sensibilidade, controle e entrega, trabalho e contemplação. Um equilíbrio que, mais tarde, faria toda a diferença na decisão de seguir o chamado do yoga.


Entre as muitas viagens do casal, a primeira para a Índia nasceu da curiosidade, não do yoga. "Apesar de, naquela época, eu já praticar asanas havia pelo menos dez anos", conta. Ana queria entender o que fazia daquele destino um lugar tão associado ao autoconhecimento. Os primeiros dias foram marcados por perrengues, choques culturais e muitas perguntas. Mas, ao final dos 40 dias, ela teve a certeza de que precisava voltar. Antes de embarcar para o Brasil, sentou-se às margens do rio Ganges e fez um único pedido: "Me traz de volta para cá."


Ao retomar a rotina corporativa no Brasil, percebeu que já não cabia mais na antiga versão de si mesma. A Índia havia despertado inquietações que tornavam cada vez mais difícil sustentar a vida construída até então. Pouco tempo depois, uma demissão em massa colocou um ponto final, naquele momento, em sua carreira na multinacional. O choque foi profundo. "Quem sou eu agora?", perguntava-se.


Yoga como alimento da alma


Pela primeira vez desde os 14 anos, o caminho deixava de ser desenhado pela razão e pelo controle. Em vez de procurar imediatamente outro emprego, tomou uma decisão que parecia impensável para quem sempre planejou cada passo: voltaria para a Índia sem saber exatamente o que encontraria por lá.


A decisão abalou a família e colocou à prova suas próprias certezas. A dor mais profunda veio da distância da filha. Na primeira semana vivendo no Himalaia, Ana recebeu um telefonema da mãe contando que a menina sofria intensamente com sua ausência. "Aquilo me tirou o chão. Eu me perguntava o tempo todo: 'O que eu estou fazendo aqui? Eu deveria estar em casa, trabalhando, sendo responsável.'"


Cogitou abandonar tudo e voltar. Foi Guima quem ponderou e a ajudou a respirar antes de tomar outra decisão impulsiva. Aos poucos, reorganizou a rotina, fortaleceu o vínculo com a filha e permaneceu. Hoje, ao olhar para trás, entende que aquela travessia não representou apenas uma mudança de país, mas a reconstrução da própria identidade. Foi nessa viagem que a mulher movida pelo controle começou, enfim, a aprender o significado da entrega.


Foi ainda na Índia que Ana compreendeu que o yoga havia deixado de ser apenas uma prática para se tornar um caminho. Curiosamente, a decisão de fazer uma formação surgiu ali, mas a escolha menos óbvia era no Brasil. Depois de viver intensamente a filosofia do yoga, de forma muito simples, realmente apenas com o que podia suprir sua vida, e perceber o quanto ainda tinha a aprender, ela entendeu que queria estudar no seu país de origem. "Eu fui para a Índia achando que faria uma formação lá. Mas percebi que ainda não era o momento. Eu precisava primeiro viver aquilo."


Foi então que, do outro lado do mundo, surgiu um chamado silencioso: voltar e ingressar na primeira turma de formação da YogaNaya International School.


A primeira "Guardiã"


Ao retornar ao Brasil, chegou à escola carregando inseguranças e muitos julgamentos sobre si mesma. "Eu tinha medo de não me encaixar, mas havia uma voz mais forte dizendo que eu precisava estar ali."



Harmônico uma paixão Renata e Ana


Bastaram poucos módulos para sentir que havia encontrado seu lugar. Sem que ninguém pedisse, procurou Renata Mozzini, uma das sócias-fundadoras da escola, e se ofereceu para ajudar na formação seguinte. "Eu só queria colaborar de alguma forma."

Assim nasceu a primeira guardiã da YogaNaya, responsável por preparar os bastidores para que professores e alunos encontrassem um espaço acolhedor para aprender. Hoje, esse é um papel central na formação.


A necessidade financeira, porém, a levou de volta ao mundo corporativo. Durante quase dois anos, conciliou duas vidas: nos dias de semana, atuava na corporação; nas noites, nos intervalos e em todos os finais de semana, ensinava yoga, acompanhava as formações da escola e construía, pouco a pouco, uma nova carreira. "Eu saía do hospital, me trocava no carro ou no banheiro de uma padaria e ia dar aula e vice-versa. Era uma loucura, mas eu precisava manter viva essa parte de mim."


Mesmo de volta às empresas, encontrou uma forma de unir os dois mundos. Convenceu o presidente da companhia em que trabalhava na época a incluir práticas de respiração nas reuniões gerenciais e percebeu que o yoga já transbordava para tudo o que fazia. A cada período de férias, retornava à Índia para continuar aprendendo. A cada nova formação da YogaNaya, aprofundava seu envolvimento com a escola. Até que chegou o momento em que já não fazia sentido sustentar duas trajetórias:"Minha escolha já estava feita. Eu só precisava oficializá-la."


Hoje ela é, além de mentora, também sócia da escola. Sua personalidade é o oposto complementar da de Renata Mozzini. Juntas, ao lado de Teo Balieiro, comandam o coração da YogaNaya: o curso de formação que tive o privilégio de concluir este ano.


Pegadas do Yoga


Ana contou que, recentemente, uma conversa com a mãe revelou uma curiosa coincidência: durante a gestação, ela foi orientada a praticar yoga por um breve período. "Acho fascinante pensar que, de alguma forma, o yoga já fazia parte da minha história antes mesmo de eu nascer", conta.


Terminei a entrevista perguntando qual era sua Pegada Sustentável, qual legado gostaria de deixar. Para uma pessoa com tantas camadas, uma resposta única é quase impossível. Ela me disse que a verdadeira pegada que deseja deixar no mundo não está nas conquistas profissionais, mas nas pessoas que ajuda a transformar. Seu legado é espalhar conhecimento para que cada vez mais pessoas encontrem um propósito e experimentem a paz que nasce de dentro. "O que eu quero deixar é que é possível chegar nesse lugar. É possível ficar gostoso aqui dentro. E, para isso, a gente não precisa de nada, a não ser de conhecimento. O meu legado é espalhar conhecimento."



A declaração da Ana me traz de volta ao início desta história e à profunda gratidão por ter sido iluminada pela tocha que ela carrega, uma chama que também iluminou meu caminho e me fez desabrochar como estudiosa e instrutora de yoga.


Quando desliguei o gravador, percebi que não havia conhecido apenas um pouco mais da história da Ana. Em alguns momentos, reencontrei discretamente partes da minha própria. Não porque nossas trajetórias sejam iguais, mas porque certas experiências moldam silenciosamente quem nos tornamos. Assim como ela, também sou filha mais velha de pais adolescentes; comecei minha vida profissional em uma videolocadora, construí uma longa carreira no mundo corporativo e também sou tímida por natureza.


As formações em Iyengar Yoga pelo Himalaya Iyengar Yoga Centre, em Dharamkot (Dharamshala), Hatha Yoga e Kriya Yoga pelo Parmarth Niketan, em Rishikesh, Yoga Nidra pela Arhanta Academy e sua formação no Brasil pela YogaNaya International School revelam a excelência de seu currículo. Mas esta reportagem nasceu com outro propósito: ir além dos certificados e conhecer a mulher por trás deles. Desvendar a força da natureza que, nesta existência, se manifesta na matéria sob o nome de Ana Lugh.


 
 
 

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há 6 horas
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Gratidão Elaine!! Pela sua sensibilidade e como você me sinto honrada pelo Universo por estar ao lado da Ana Lugh, minha mestra e ao lado de todos os queridos mestres e alunos da formação. E como a Ana pediu ao Ganges eu também pedi para o Yoga me buscar de volta, sem saber como seria esse retorno, pedi e acreditei, agora sei o meu caminho!

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