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Pegadas do Yoga: a oficial da Marinha que aprendeu a navegar para dentro

  • Foto do escritor: Elaine Silva
    Elaine Silva
  • há 23 horas
  • 6 min de leitura

Cátia Paiva é assistente social, pós-graduada em projetos sociais e oficial da Marinha do Brasil. Confesso que encontrar uma militar entre os futuros instrutores de um curso de formação em yoga me pareceu, num primeiro momento, algo inusitado. O que teria levado aquela jovem oficial até ali? E como pretendia conciliar duas trajetórias que, à primeira vista, pareciam tão distintas? Desde a primeira roda de conversa, quando cada participante se apresentou e compartilhou um pouco da própria história, essa pergunta ecoou em mim.


Fonte: Acervo pessoal
Fonte: Acervo pessoal

Meu primeiro contato com ela aconteceu na volta do almoço, durante um dos encontros presenciais da formação em yoga. Lembro-me de ouvi-la contar que havia iniciado o curso com outra turma, mas que só agora conseguia concluí-lo. Falava também da surpresa com a forma como havia sido acolhida pelo nosso grupo. Cátia experimentou, na prática, a força da Sangha (palavra em sânscrito usada para definir a comunidade que caminha unida em uma mesma jornada). E de acolhimento ela realmente entende. Formada em Serviço Social, ela construiu sua trajetória transitando por universos que raramente imaginamos juntos. Entre a farda e o tapetinho, entre a disciplina militar e o cuidado com o outro. Mas essa história começou muito antes da formação em yoga. 


O início da sua vida profissional foi semelhante ao de muitos jovens periféricos. Trabalhou como operadora de telemarketing, emprego que lhe permitiu pagar o curso técnico em Radiologia, profissão que, no fim das contas, nunca chegou a exercer. O rumo da sua trajetória começou a mudar quando ingressou como recepcionista na Prefeitura do Rio de Janeiro. Foi ali que teve contato com um projeto social voltado para moradores do Complexo da Maré e descobriu uma vocação que ainda não sabia que carregava. “Foi um baque. Eu só ouvia falar daquela realidade, mas nunca tinha vivido nada parecido. Quando vi aquelas pessoas e a forma como eram acolhidas, pensei: preciso fazer a diferença de alguma maneira”, lembra Cátia.


Rodas de conversas com terapias integrativas (Fonte: acervo pessoal )
Rodas de conversas com terapias integrativas (Fonte: acervo pessoal )

Caçula de três irmãs, nascida e criada em Cosmos, na Zona Oeste do Rio, ela encarava uma rotina pesada. Movida pela busca por um caminho que unisse propósito de vida e crescimento profissional, ingressou como bolsista na Unisuam. Na época, cruzava a cidade diariamente entre a casa em Cosmos, o trabalho no Centro e a faculdade em Bonsucesso. “Foi um período de muita persistência. Eu saía cedo, chegava tarde e a rotina era cansativa, mas eu sentia que estava construindo algo importante. Quando conheci a assistência social, tive a certeza de que era ali que eu queria estar. Foi a profissão na qual realmente me encontrei”, lembra Cátia.


O diploma, contudo, era apenas o começo. Ela queria encontrar um espaço onde pudesse exercer plenamente a profissão que havia escolhido. Enquanto atuava em funções administrativas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, surgiu um novo horizonte: incentivada pelo marido, decidiu prestar concurso para a Marinha do Brasil em sua área de formação.  À primeira vista, assistência social e carreira militar podem parecer caminhos distantes. Para ela, porém, ambos compartilhavam um mesmo propósito: servir às pessoas.  


Já acostumada à prática de exercícios físicos, Cátia intensificou a preparação para os testes de aptidão exigidos pelo concurso. “Foi nessa época que a chave começou a virar. Durante os exames para ingressar na Marinha, descobri que estava pré-diabética. A notícia me pegou de surpresa, porque nunca tive uma alimentação muito desregrada. Hoje entendo que havia uma questão genética envolvida. A partir dali, passei a me dedicar ainda mais à atividade física. Comecei a correr, fazer natação e buscar hábitos mais saudáveis. E foi nesse processo que o yoga entrou na minha vida, nessa fase ainda como praticante”, conta Cátia.



A preparação valeu a pena. Após enfrentar quatro etapas exigentes, ela conquistou a aprovação e foi contratada para atuar por oito anos como assistente social no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk, localizado na Ilha das Enxadas, no Rio de Janeiro, escola responsável pela formação de oficiais da Marinha. Sem imaginar, ela começava ali a construir uma trajetória singular. 


Fonte: Acervo pessoal
Fonte: Acervo pessoal

Como assistente social, atende hoje cerca de 350 integrantes da tripulação e seus familiares, oferecendo suporte a marinheiros, cabos, sargentos e oficiais. O trabalho também alcança os alunos em formação,  profissionais já graduados em áreas como Engenharia, Medicina, Direito e Serviço Social, que passam por um período de aproximadamente dez meses de preparação para a vida militar. Entre o serviço social, a disciplina da vida militar e a busca por mais saúde e equilíbrio, surgiam os primeiros passos de um caminho que, anos mais tarde, a levaria à formação como instrutora de yoga. “A perda do meu pai foi o momento em que o yoga ganhou um novo significado para mim. Eu nunca soube lidar bem com a morte e, mesmo tendo fé, ainda procuro compreender esse processo um dia de cada vez. Foi na prática que encontrei um espaço de presença e acolhimento que me ajuda a regular as emoções e seguir em frente”, lembra.


Fortalecer a autoestima a partir do autoconhecimento 


O que começou como uma ferramenta de autocuidado logo encontrou espaço também na vida profissional. Incentivada pelo próprio comando da Marinha a explorar práticas integrativas voltadas à promoção da saúde e do bem-estar, Cátia passou a incorporar técnicas de respiração, relaxamento e escuta qualificada em suas atividades como assistente social. Os primeiros ensinamentos do yoga começaram a surgir nas rodas de conversa realizadas com militares e familiares, onde exercícios de respiração guiada passaram a fazer parte dos encontros. Para ela, a receptividade crescente revela uma necessidade muitas vezes silenciosa. Em um ambiente tradicionalmente associado à disciplina e à resistência emocional, práticas voltadas ao autoconhecimento ainda enfrentam alguma desconfiança inicial. Ao mesmo tempo, a assistente social observa uma demanda cada vez maior por acolhimento e escuta.  


Com as crianças projeto social do Ministério da Defesa, realizado em parceria com a Marinha, o Exército e a Aeronáutica (Fonte: Acervo pessoal)
Com as crianças projeto social do Ministério da Defesa, realizado em parceria com a Marinha, o Exército e a Aeronáutica (Fonte: Acervo pessoal)

Na tentativa de fortalecer a autoestima daqueles que atende, ela aposta em iniciativas simples, mas carregadas de significado. Recentemente, comprou um espelho para colocar em sua sala de atendimento. A ideia é incentivar um exercício que considera fundamental: olhar para si mesmo. "Eles chegam com a autoestima baixa. Quero que possam se enxergar, se perceber. Parece algo simples, mas faz muita diferença", afirma. É nesse espaço de cuidado que o yoga vem encontrando terreno fértil para florescer, não apenas como prática corporal, mas como ferramenta de presença, escuta e reconexão consigo mesmo.


O projeto agora, após a conclusão da formação como instrutora de yoga, é incorporar as práticas, de forma ainda mais consistente, para o grupo de adolescentes de 14 a 17 anos que ela acompanha por meio de um projeto social do Ministério da Defesa, realizado em parceria com a Marinha, o Exército e a Aeronáutica. Os jovens, moradores de comunidades da região central do Rio, como Morro da Conceição e Providência, participam duas vezes por semana de atividades esportivas e educativas na organização militar. É nesse convívio que Cátia procura semear pequenas reflexões. “Eles vivem uma realidade muito difícil. Sempre que surge uma situação de raiva ou conflito, eu tento mostrar que existe outro caminho. Falo para eles respirarem, observarem o que estão sentindo e refletirem antes de agir”, conta. As técnicas de respiração e até algumas posturas de yoga já fazem parte dos encontros. 


A “Pegada” que Cátia quer deixar no mundo


Ao longo da conversa, fica claro que sua missão vai além das técnicas e dos ásanas. Está nas rodas de conversa com militares, nas reflexões que conduz durante palestras, nos exercícios de respiração compartilhados com adolescentes de comunidades do Rio e até nas pequenas pausas que convida as pessoas a fazerem em meio à correria do cotidiano.


Quando pergunto qual pegada ela deseja deixar no mundo, a resposta vem sem hesitação. Antes mesmo de pensar em formar novos praticantes de yoga, Cátia quer transformar a forma como as pessoas se sentem nos espaços que habitam. "Eu quero deixar minha primeira pegada lá na ilha onde trabalho. Quero que as pessoas olhem para aquele lugar como um espaço de acolhimento, e não apenas como um lugar de cobrança e disciplina. A gente tem uma vista linda para o mar e eu sempre digo para eles: parem um minutinho, olhem para o mar e prestem atenção na respiração. Só isso já pode mudar completamente a energia de um dia difícil", afirma.





 
 
 

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há 20 horas
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Mais uma vez encantado com a história e a contrução da narrativa! Vocês são incríveis

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