Pegadas do Yoga: A divina essência de uma buscadora
- Elaine Silva
- há 1 dia
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Poderia começar este texto falando da arquiteta e urbanista que se tornou instrutora de yoga. Mas Éllem M Rambo transita, ainda, pelas profissões de atriz e dublê. E também é amiga, filha, companheira. Em alguns momentos, é pura luz; em outros, revela suas vulnerabilidades, suas sombras. É emoção, mas também força. Tudo ao mesmo tempo. Um mosaico de fragmentos que revela uma buscadora. Por isso, simplificá-la por suas experiências profissionais é quase como olhar apenas para uma praia e querer definir o oceano.

Ela acredita que seu movimento fala mais do que suas palavras. Mas, intimamente, tive outra impressão. Seu movimento e sua palavra se complementam e, talvez ela ainda não tenha percebido, ambos apenas revelam algo maior: sua presença. Essa gaúcha do Rio Grande do Sul é, acima de tudo, uma experiência profunda. Uma força que se manifesta no corpo, na voz, no silêncio e na maneira como ocupa os espaços. É impossível não notá-la. E não digo isso apenas pela beleza visível, mas também pelo que alguns chamam de carisma e que eu prefiro denominar como uma energia expansiva. Há pessoas que simplesmente são assim.
Nesses nove meses de convivência nas aulas presenciais da formação da Yoganaya, tivemos poucas trocas durante os tradicionais almoços da turma Koragem. Mas no último módulo, quando a sala foi dividida e compartilhamos a experiência de construir uma aula conjunta entre 12 alunos-professores, que pude experimentar pela primeira vez sua potência criativa.
Ela trouxe a dança e conduziu toda a sala, com uma voz ao mesmo tempo suave e vibrante, para um lugar de êxtase. Foi ali que descobri o elo que mais me conecta a Éllem: o profundo amor e respeito pela expressão corporal em forma de dança.
Sua jornada, que culminou na formação em Yoga, começou muito antes, na Éllem criança. Antes da arquiteta, da atriz, da dublê ou da instrutora de yoga, existia uma menina que já intuía sua forma de existir no mundo. "Eu sempre fui uma criança muito ativa. Acho que sempre me expressei muito com o corpo. Já com as palavras, eu nunca fui muito boa", conta. Talvez por isso seu movimento nunca tenha sido apenas estética. Sempre foi linguagem. Na infância, sonhava em ser cantora mirim. Descobriu cedo que nem sempre os sonhos cabem nas expectativas dos outros. "Me falaram: 'Mas você não sabe cantar'. Aí pensei: 'Quero ser modelo'. Responderam: 'Tu não tem altura'. Foi quando uma amiga disse: 'Para ser atriz tu não precisa nem cantar nem ter altura'. Aí eu falei: 'Vou ser atriz, então'." Ela ri ao lembrar da sequência de acontecimentos.
Teatro como porto seguro para alma
Quando chegou a hora do vestibular, queria cursar Artes Cênicas ou Ciências Sociais. O teatro a atraía, mas também existia nela um desejo genuíno de compreender as pessoas e o mundo. "Eu sempre tive muito interesse pelas questões sociais." Mas veio a frase que tantas pessoas já ouviram dentro de casa: 'Isso não dá dinheiro'. Incentivada por uma amiga, escolheu Arquitetura, deixou o Rio Grande do Sul aos 17 anos e foi estudar em Santa Catarina. A decisão parecia racional, mas não fazia sentido para sua alma. "Durante os anos da faculdade, a sensação era de estar apenas seguindo o roteiro da vida de outra pessoa, não o da sua. A cada semestre, pensava em desistir, mas continuava.
O teatro, iniciado aos 12 anos, permaneceu como um fio de identidade em meio àquela travessia. Já formada, com um futuro aparentemente traçado ao lado do então namorado (ele engenheiro, ela arquiteta), o script parecia pronto: abrir uma empresa e seguir em frente. Foi então que, mais uma vez, uma amiga interrompeu o piloto automático ao lhe perguntar se ela realmente iria viver os planos dos outros. "São sempre elas, minhas amigas, iluminando o meu caminho", diz. A pergunta foi suficiente para mudar sua direção.

Ocupando o seu lugar natural
Na manhã em que comecei a escrever sobre Éllem, acordei pensando em como traduzir a sensação que ela havia me deixado. Abri o Spotify para desacelerar e, sem qualquer intenção, encontrei uma música que não ouvia há tempos: Onde o Jaguar Espreita, de Advan Haschi. Naquele instante, um verso iluminou a entrevista inteira: "Passo abrindo caminhos, rumo ao infinito, divina essência de um buscador. A mata bruta me mostra quem sou."
Talvez tenha sido exatamente essa a impressão que Éllem despertou em mim. Mais do que alguém que encontrou respostas, ela aprendeu a caminhar. E talvez essa seja a divina essência de uma buscadora. Foi assim que chegou ao Rio de Janeiro para estudar teatro, decidida a não voltar atrás. Mas a vida insistiu em lhe oferecer aquilo que acreditava querer deixar para trás. Logo surgiu uma oportunidade na construção civil. Como responsável técnica, passou a acompanhar obras e a construir uma carreira sólida. O que deveria durar meses acabou se transformando em 14 anos, entre canteiros de obras, projetos e desafios. O teatro, porém, permaneceu vivo, ainda que ocupasse um espaço secundário em sua rotina. E foi quase por acaso, durante um exercício de atuação, que aconteceu seu primeiro encontro com o yoga.
Instrutora de yoga com excelência
"Eu não sabia o que eu queria, mas agora estou confortável na pele de instrutora de yoga e sinto que retornei ao caminho", confidencia. Éllem diz ter a sensação de que, em algum lugar do espaço-tempo, já conduziu práticas de yoga e que, por isso, tudo lhe parece um reencontro. Ao ouvi-la, lembrei de outra reflexão que havia encontrado no dia anterior. Ao comentar a Odisseia, de Homero, o professor Clóvis de Barros Filho diz que a felicidade está em aceitar a própria natureza e ocupar o seu "lugar natural". Talvez seja exatamente isso que vejo nela. Não a sensação de quem finalmente chegou, mas de quem, depois de tantos desvios, voltou para casa.
Há um fio invisível que atravessa toda a história da Éllem. Durante muito tempo, ela acreditou que precisava conquistar o mundo pela força. Quando criança, não entendia por que os meninos podiam andar sem camisa e ela não. Mais tarde, sem perceber, escolheu justamente os lugares onde precisava provar que era capaz de ocupar espaços tradicionalmente masculinos. Trabalhar em obras, para ela, carregava um status. Era um ambiente em que precisava demonstrar competência o tempo inteiro. "Era sempre na força, na raça e tendo que me provar." Hoje ela reconhece que esse movimento era inconsciente, mas durante anos acreditou que precisava ser melhor do que todos para merecer estar ali. Ao mesmo tempo, existia uma artista que insistia em sobreviver. Sem acreditar que o teatro pudesse lhe garantir o sustento, foi colecionando experiências: direção de arte, filmmaker, dublê de ação em novelas, sempre aceitando novos desafios.
Então a vida lhe apresentou, pela segunda vez, o mesmo roteiro. Um relacionamento, um engenheiro civil e o plano de abrir uma empresa juntos. Foi nesse momento que entendi que a busca da Éllem nunca foi apenas profissional. Ela estava aprendendo a romper padrões para, finalmente, encontrar a própria natureza
Ponto de não retorno
A pandemia marcou um ponto de virada na vida dela. O período de isolamento deu início a uma intensa jornada de autoconhecimento por meio da meditação, da escrita, da constelação familiar, da terapia e de diferentes estudos sobre desenvolvimento pessoal. Aos poucos, abandonou antigos hábitos e passou a buscar uma rotina mais alinhada ao seu bem-estar, percebendo que já não compartilhava os mesmos valores e ritmo de vida do então companheiro, o que culminou no fim do relacionamento. A partir dali, aprofundou ainda mais sua busca espiritual e interior. Embora há anos desejasse deixar a construção civil, permaneceu na área por planejamento financeiro, estabelecendo um prazo para encerrar esse ciclo. Nesse período, o interesse pelo yoga, alimentado também por conversas e vivências ligadas ao movimento e ao autoconhecimento, ganhou força e começou a deixar de ser apenas uma prática ocasional para se transformar em um chamado.

A decisão de iniciar a formação em yoga aconteceu da mesma forma como tantas outras escolhas marcantes em sua vida: por uma certeza difícil de explicar. Ao descobrir que era possível ingressar no curso mesmo sem uma prática consolidada, inscreveu-se no mesmo dia e não hesitou. "É isso", lembra ter pensado. Sem criar grandes expectativas, dizia a si mesma que, na pior das hipóteses, sairia dali uma pessoa melhor. Mas bastaram os primeiros módulos para perceber que havia encontrado seu caminho. As vivências despertaram emoções profundas e, ao conhecer o Vinyasa, sentiu o corpo responder antes mesmo que as palavras pudessem explicar. "Quando é assim, não tem margem para dúvida. Só foi."Ao longo da formação, ela percebeu que já não fazia sentido permanecer no ritmo intenso da construção civil. Hoje, a arquitetura continua presente em sua vida, mas em outro lugar: aceita apenas projetos pontuais, no seu tempo e nas condições que considera saudáveis. Deixou de enxergar a profissão como um peso e passou a entendê-la como parte da sua trajetória. O yoga, porém, tornou-se sua principal escolha. É na condução das aulas que afirma se sentir verdadeiramente à vontade, fortalecida e no caminho que deseja seguir.
Caminhando que o caminho se abre
Na Yoganaya, os professores são incentivados a participar do programa Mahakarma, que leva aulas voluntárias para espaços públicos. Sempre que algum colega da turma conduz uma prática, faço questão de estar presente. É a minha maneira de incentivar quem está nesta caminhada. Recentemente, pratiquei com Éllem em uma aula conduzida em parceria com outra colega da formação. Saí de lá com uma sensação difícil de traduzir. Eu no papel de praticante, era impossível imaginar que ela havia começado a dar aulas há tão pouco tempo. Havia firmeza na condução, clareza nas orientações e, principalmente, presença. Curiosamente, foi justamente ali que caiu por terra a ideia que ela sempre carregou de que seu corpo se expressava melhor do que suas palavras. Naquela manhã, os dois dançavam juntos. Pela primeira vez, ela diz conseguir olhar nos olhos das pessoas sem o medo constante de ser julgada. "Meu corpo sempre se expressou muito. Nunca tive vergonha de me movimentar. O medo era falar." Talvez seja justamente por isso que, agora, corpo e palavra tenham finalmente deixado de caminhar separados.

Como faço com todos os personagens desta série de entrevistas, perguntei qual é a Pegada do yoga da Éllem? Que marca ela deseja deixar no mundo? E ela não falou de posturas, técnicas ou alinhamentos. Falou de expressão. Disse que deseja ajudar as pessoas, especialmente as mulheres, a desenvolverem uma escuta mais profunda do próprio corpo, aprendendo a reconhecer emoções, sentimentos e tensões por meio do movimento. E, quando perguntei se já havia pensado em desenvolver um método próprio, a resposta veio quase sem hesitação: "Acho que é a dança, o yoga e o teatro." Confesso que, ao terminar a entrevista, fiquei com a sensação de que acabara de conhecer os primeiros esboços do que um dia poderá se tornar o método Éllem M Rambo. Não um método para ensinar posturas, mas um caminho de regulação emocional em que yoga, dança e teatro se encontram para devolver às pessoas aquilo que, durante tanto tempo, ela própria buscou: a liberdade de habitar o corpo, confiar na própria voz e transformar movimento em presença.















Histórias linda contada com alma e coração!