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Pegadas do Yoga: o chamado de um Ser Natural

  • Foto do escritor: Elaine Silva
    Elaine Silva
  • há 6 minutos
  • 13 min de leitura

Quando ela fala, sua voz é forte e potente, e suas palavras inspiram. Mas, quando canta, essa mesma voz encanta, com um timbre doce, suave e emocionante. Não tinha como iniciar esta reportagem sobre a Mirna de outra forma que não fosse pelo impacto que sua fala teve sobre mim durante os nove meses da formação na Yoganaya. Foi a primeira pessoa a se manifestar em sala de aula sobre como havia se sentido depois da prática inaugural. Enquanto o silêncio da turma ainda ecoava, Mirna começou os trabalhos. A partir dali, toda vez que ela fala, seja na aula ou nos encontros informais da sangha (comunidade da turma Koragem), meu coração se abre e o meu olhar observador tenta decifrar quem é essa pessoa com tamanha capacidade de agregar.



A força da comunicação de Mirna, ela conta, que foi construída justamente no enfrentamento de seus próprios medos. Durante a pandemia, ao praticar yoga, pranayamas e meditação diariamente em um grupo on-line, percebeu que conseguia se expressar com mais liberdade, silenciando os julgamentos internos que tantas vezes haviam freado sua voz. Outros espaços de acolhimento, como as sanghas de yoga e Ayurveda e os processos de autoconhecimento que vivenciou, ajudaram a fortalecer essa confiança. Aos poucos, falar deixou de ser apenas exposição para se transformar em serviço. 


“Quando me coloco no lugar da fala, sei que estou servindo. Procuro trazer uma experiência que possa harmonizar e empoderar o outro também”, explica. O medo, no entanto, não desapareceu: às vezes o coração ainda dispara antes de se expor, mas hoje ela escolhe atravessá-lo. E aprendeu também a desprender-se do resultado: “O que me pertence é aquilo que sai de mim. Já tocar o coração do outro pertence à história de cada um”


Talvez tenha sido justamente essa potência da fala que tenha despertado em mim tanta curiosidade sobre a história por trás dela. Ao convidá-la para integrar o projeto do Pegadas do Yoga, eu sabia que ouvir sua história seria uma experiência impactante, mas não fazia ideia do quanto ela seria profunda. 




Mirna é literalmente uma força da natureza em todos os sentidos. Ela nasceu e cresceu em Resistência, capital da província de Chaco, no norte da Argentina. O nome da cidade, que por si só evoca força, guarda também uma história que ela gosta de contar: remete à resistência dos povos indígenas da região diante do avanço sobre seus territórios. Foi ali que seus pais se conheceram e construíram a família. Distante tanto dos parentes maternos quanto dos paternos, Mirna cresceu tendo como principal referência aquele pequeno núcleo formado pelos pais e dois irmãos.




Lembranças de Resistência: com a inseparável bicicleta em três momentos (num deles com o pai), na assistência médica, com os pais celebrando a entrada na faculdade e com os irmãos.


Desde muito pequena, ela já brincava de misturar plantas e outros elementos que encontrava no quintal de casa, imaginando formas de curar. “Sinto que o chamado pelo caminho da cura estava em mim desde sempre. Eu brincava de ser médica, de misturar coisas para descobrir como curar animais e pessoas”, lembra. Para ela, a escolha parece ter nascido do encontro entre uma vontade muito própria e o orgulho que percebia no olhar dos pais, de origem humilde e com pouca escolaridade, quando ela falava em ser médica. Suas referências de cuidado e cura vinham da medicina ocidental tradicional. “Na minha cultura, quando alguém estava doente, as pessoas que traziam a ‘cura’, ou o que eu entendia como cura naquela época, eram os médico.


Força motriz


Mas a Medicina não foi o único caminho que despertou o interesse dela. Desde que entrou na escola, o esporte ocupou um espaço importante em sua vida. Vôlei, basquete, futebol, qualquer atividade que envolvesse movimento a atraía. Estava sempre nas quadras, participando de torneios e de tudo o que lhe permitisse colocar o corpo em ação. Por isso, durante algum tempo, chegou a considerar cursar Educação Física. Na hora da escolha profissional, porém, pesaram não apenas as perspectivas que enxergava para a carreira, mas também aquele desejo antigo pela medicina.


Ainda no ensino médio, começou a se preparar para o ingresso na faculdade. “Eu estudava muito. Era o dia inteiro, finais de semana, domingos, o tempo todo estudando”, lembra. O esforço a levou à faculdade de Medicina e, alguns anos mais tarde, os dois interesses que haviam marcado sua juventude acabaram se encontrando. Ao final do curso, escolheu focar na Medicina do Esporte, embora não houvesse especialistas na área em sua região e a formação estivesse concentrada em Buenos Aires, a cerca de 1.200 quilômetros de sua cidade.


Muitas faces da atleta


Determinada a construir esse caminho, procurou o centro esportivo local e se ofereceu para trabalhar como voluntária. A iniciativa encontrou uma oportunidade imediata. Naquele mesmo dia, começou a atuar no complexo poliesportivo, passando por diferentes áreas e adquirindo a experiência que buscava para sua futura especialização. Conciliando o trabalho voluntário com a faculdade, ao longo de dois anos, teve contato com diferentes modalidades esportivas, até ser contratada para integrar uma equipe multidisciplinar de agentes públicos, que atuava na prevenção de doenças como obesidade, diabetes e hipertensão por meio da atividade física e também na reabilitação de pacientes e na capacitação de professores de educação física.


Antes mesmo de concluir a faculdade, no entanto, Mirna viveu um período em que o corpo pareceu lhe pedir uma pausa. Depois de anos de dedicação intensa aos estudos, começou a sentir uma espécie de bloqueio diante das provas e percebeu que precisava cuidar também do que acontecia internamente. Com o apoio dos pais, decidiu se afastar temporariamente da faculdade e buscar no movimento um caminho para atravessar aquele momento. A bicicleta, que já fazia parte de sua rotina, ela pedalava cerca de 20 quilômetros até a universidade, ganhou a companhia da corrida e da natação. Vieram as meias maratonas e, depois, o triatlo. Ela chegou a competir no Ironman, uma das provas de triatlo mais difíceis do mundo, em que os atletas fazem três atividades seguidas sem parar para descansar.



Quando o corpo encontra a natureza


Foi por meio da vida acadêmica que o Brasil entrou em sua trajetória. Mirna veio ao país pela primeira vez para apresentar um trabalho de pesquisa em um congresso na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Na Argentina, além da formação universitária, ela também  atuava como pesquisadora nas áreas de anatomia e bioquímica e medicina do esporte. 


Algo no Brasil sempre a atraiu. Ela gostava do país e da língua portuguesa. A viagem para Florianópolis, porém, reservava um encontro ainda mais marcante. Nascida a centenas de quilômetros do litoral, Mirna conheceu o mar e foi amor à primeira vista. Mais do que contemplá-lo da areia, queria estar dentro dele. “Não podiam me tirar de lá. Até hoje, as pessoas que vão ao mar comigo sabem que muitas vezes é como ir sozinhas, porque eu fico lá. Poderia ficar infinitamente. Eu me sinto como um golfinho, como se aquele fosse o meu lugar”, conta. A água, de alguma maneira, parecia despertar um sentimento de pertencimento que ganharia cada vez mais espaço em sua trajetória.



Depois da primeira viagem ao Brasil, Mirna voltou para a Argentina com uma certeza: de alguma forma, o mar precisava fazer parte de sua vida. Anos mais tarde, já dedicada à Medicina do Esporte, o caminho a trouxe novamente ao Brasil para trabalhar com as seleções argentinas de mountain bike e triatlo, primeiro em competições internacionais e, depois, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. “Eu me via literalmente como se estivesse num parque de diversões e vivendo um sonho magnífico”, lembra ela sobre aquele período em que esporte, trabalho e descoberta se misturavam. Mas, novamente, foi o encontro com o mar que a atravessou, desta vez com as águas quentes do litoral fluminense.


O despertar pela alimentação viva 


Durante a estadia no Rio, outra experiência abriria uma nova porta. Na casa onde estava hospedada, conheceu a alimentação viva e experimentou pela primeira vez um leite feito com amêndoas. “Foi uma coisa que me equilibrou totalmente. Meu corpo nunca mais esqueceu aquilo”, conta. A partir dali, começou a se interessar pelo potencial vital dos alimentos e a descobrir uma nova maneira de compreender a relação entre natureza, corpo e saúde.


Em 2017, aquela descoberta ganhou uma nova dimensão quando a amiga que a havia apresentado à alimentação viva lhe enviou um curso on-line da Semana da Alimentação Viva (Semav). Mirna acompanhou as aulas e reproduziu as preparações em casa, em Resistência, passando a se alimentar quase exclusivamente dessa forma. O impacto, segundo ela, foi profundo. Acostumada à rotina intensa de treinos para o triatlo, percebeu mudanças não apenas em seu desempenho físico, mas também na maneira como dormia, sonhava e percebia a si mesma. “Foi um despertar de consciência absurdo. Eu sentia no corpo, na mente, em todas as minhas camadas”, lembra. A experiência coincidiu com um desejo que já vinha cultivando de viajar e conhecer outros lugares e acabou dando um novo propósito a esse plano.  Ela decidiu aprofundar seus conhecimentos sobre alimentação viva.



Ao pesquisar referências na área, encontrou no Brasil o Terrapia, projeto ligado à Fiocruz que unia alimentação viva e agroecologia. Mais uma vez, o caminho apontava para o Rio. A possibilidade de estudar no Terrapia ganhou contornos ainda mais concretos porque o projeto ficava próximo à casa da amiga que sempre a acolhia na cidade.


Ao mesmo tempo, Mirna sentia crescer a necessidade de encontrar um espaço onde pudesse integrar a medicina aos saberes naturais que já estudava, como Ayurveda e outras práticas terapêuticas, ainda pouco compreendidas em seu meio profissional. Uma reflexão sobre reconhecer e desenvolver os próprios talentos foi o impulso que faltava. Numa sexta-feira, ligou para a amiga, recebeu seu apoio e encontrou uma passagem para o Rio bem barata. Na segunda-feira seguinte, começava uma nova etapa de sua vida no Terrapia.


Mirna mergulhou não apenas na alimentação viva, mas também na agroecologia, e aquele universo começou a ampliar sua percepção sobre a relação entre alimento, natureza e formas de viver. Novos sabores, temperos e preparações abriram seu paladar, enquanto a convivência em um ambiente marcado por mutirões, trabalho na terra e cooperação lhe apresentava um paradigma muito diferente da competitividade do ambiente clínico ao qual estava acostumada. 


O plano inicial era permanecer no Rio por apenas um mês, aprender e levar o conhecimento de volta para a Argentina. Ao fim desse período, porém, percebeu que precisava de mais tempo para integrar tudo o que estava vivenciando. Voltou a Resistência por um fim de semana, se demitiu de alguns trabalhos que fazia por lá, organizou a venda de alguns bens, assinou procurações e renunciou do aluguel do apartamento. No domingo à tarde, já estava novamente no Rio e, desta vez, sem data para voltar.


O “Ser Natural” e a simbologia dos encantados


A espiritualidade também atravessa a trajetória de Mirna desde a infância. Criada por uma mãe Testemunha de Jeová e um pai de origem evangélica, cresceu com os irmãos tendo liberdade para buscar o próprio caminho, mas com a certeza da existência de Deus. Hoje, sua compreensão do divino ultrapassa religiões e fronteiras: “Para mim, Deus é Shiva, é a Virgem, está na igreja e fora dela, está no mar, está em mim, está em você”. Uma espiritualidade que, ao longo de sua jornada, encontrou na natureza uma de suas mais profundas formas de manifestação.



Por isso que a natureza deixou de ser apenas um lugar onde Mirna se sentia bem para se tornar parte essencial de sua maneira de compreender a saúde e a própria existência. Das primeiras experiências com a alimentação viva e a agroecologia ao encantamento pelo mar e às práticas integrativas, foi construindo uma percepção cada vez mais profunda de que o ser humano não está separado do mundo natural. “Meu sonho é levar para mais pessoas essa mensagem de quanto a gente tem mais saúde e mais bem-estar quando se encontra com a natureza”, conta.


No Rio, essa integração ganhou também uma dimensão prática. Mirna passou a conduzir vivências e caminhadas na floresta e, ao acompanhar diferentes grupos, percebeu o quanto o afastamento da natureza havia produzido também medo. Para ela, aproximar as pessoas  novamente desse ambiente tornou-se uma forma de cuidado. “Queria ajudá-las a experimentar a mata não como um espaço estranho ou ameaçador, mas como um lugar ao qual também pertencem”. 


Essa compreensão foi se tornando tão central na trajetória dela, e é desse lugar que nasce uma expressão que ela carrega hoje quase como uma definição de si mesma: Ser Natural. A imagem dessa identidade construída por Mirna despertou na minha mente a associação com as cosmologias dos povos originários da floresta e seus seres encantados, guardiões da natureza. Em diferentes tradições indígenas, ribeirinhas e de comunidades tradicionais brasileiras, especialmente na Amazônia, os encantados ultrapassam o universo das lendas ou das histórias de faz de conta. São compreendidos como forças vivas ligadas à natureza, aos ancestrais e à proteção das matas, dos rios, das plantas e dos animais.


Essa simbologia nos conduz a uma relação com o mundo natural baseada em respeito, reciprocidade e cuidado. E talvez seja justamente aí que eu encontre a ponte com Mirna. Há em sua trajetória um chamado para a cura que caminha lado a lado com uma relação cada vez mais profunda com a natureza, não como algo externo ou mero cenário para a existência humana, mas como parte viva de quem somos. É nesse lugar que sua busca pelo “Ser Natural” ganha, para mim, mais significado.


Nove meses para renascer


Mirna permaneceu no Rio até o fim daquele semestre do curso de formação de alimentação viva, sustentada pela reserva financeira que havia preparado para sua temporada fora da Argentina e mergulhada em uma rotina diária de estudos. Ao retornar à Argentina no fim do ano, já carregava a decisão de voltar e construir uma vida no Brasil. De volta ao Rio, encontrou espaço para atuar com Ayurveda e outras práticas integrativas, justamente quando elas começavam a ganhar maior reconhecimento no país, inclusive no SUS. Era mais um sinal, para ela, de que deveria aprofundar aquele caminho. O yoga, no entanto, já fazia parte de sua vida desde 2011, quando conheceu a prática, a meditação e os pranayamas por meio de um curso da Arte de Viver, organização na qual também atuou como voluntária.



Ela conhecia o trabalho da escola Yoganaya pelas aulas ao ar livre no Arpoador e alimentava, ainda como um sonho distante, a vontade de um dia estar “do outro lado”, compartilhando a prática. Depois de passar seis meses na Argentina por questões familiares, retornou ao Rio e foi a um kirtan (prática devocional coletiva da Índia antiga que consiste em cantar mantras ou nomes sagrados em estilo de chamada e resposta) em busca justamente daquela energia de nutrição para a alma. Naquela noite, encontrou Rê Mozzini, fundadora da escola, que divulgava a formação que começaria no dia seguinte. Mirna se aproximou apenas para agradecer pela prática, mas sentiu um chamado inexplicável.


A proposta era de uma formação de nove meses. Imediatamente,  associou aquele tempo a uma gestação. “Eu falei: ‘Nossa, uma gravidez’. E ela respondeu que era realmente para renascer, mas que, para isso, eu precisava estar disposta a deixar morrer uma velha versão.” 

Vieram as dúvidas sobre tempo, dinheiro e sobre como encaixar aquele compromisso em uma vida que acabara de reorganizar. Ainda assim, alguma coisa naquela conversa falou mais alto.


No dia seguinte, Mirna estava em sala para começar a formação, levando consigo uma decisão: se assumiria aquela “gestação”, faria dela também uma oportunidade para romper antigos padrões. E foi justamente ali que aconteceu a cena que abre esta reportagem. Depois da primeira prática da turma, Renata perguntou quem gostaria de compartilhar o que havia sentido. Instalou-se um longo silêncio. A antiga Mirna, conta ela, teria se escondido atrás dele. Dessa vez, decidiu fazer diferente. “Eu pensei: esta é a primeira oportunidade que vou ter de quebrar esse velho padrão. Então vou falar.” E falou. 



Ao longo dos nove meses seguintes, encontrou na formação um espaço de expressão, acolhimento e respeito que fortaleceu cada vez mais sua voz e sua confiança. Perto do fim do curso, outro movimento parecia confirmar essa transformação: depois de anos participando como aluna de um projeto de yoga na praia, recebeu o convite para assumir também o lugar de professora. O sonho de estar “do outro lado” começava, enfim, a ganhar forma.


Para Mirna, concluir o curso não significou chegar ao fim, mas sim nascer para um caminho que ainda está aprendendo a percorrer. Aos poucos, entre aulas, práticas e experiências como professora, sente-se fortalecendo a própria estrutura. “Faço uma analogia com a coluna vertebral. Quando nascemos, ela ainda é molinha, ainda sem forma, mas, aos poucos, vai se fortalecendo e nos sustentando. É assim que me vejo hoje, construindo a base para assumir novas responsabilidades e colocar o yoga a serviço de mais pessoas.”


E qual é a Pegada do Yoga da Mirna?


E, quando pergunto de que forma deseja colocar esse yoga a serviço do mundo, a resposta nos leva de volta à palavra que atravessou toda a sua trajetória: a natureza. É justamente aí que ela reconhece a sua Pegada do Yoga. “Minha pegada é ser uma ponte para que cada pessoa possa conhecer a sua própria natureza e gostar dela”, diz. Para Mirna, isso significa perceber o próprio corpo, mas também reconhecer-se no nascer e no pôr do sol, nos ciclos da lua, no mar, nas estações e no mundo vivo ao redor. “Só conseguimos cuidar verdadeiramente daquilo a que sentimos pertencer. Por isso, reconectar-se à natureza é também despertar para o cuidado com o planeta e com os outros seres”, diz.


A essa consciência ela acrescenta outra prática que deseja deixar em suas aulas: a gratidão pelas pequenas coisas, que considera uma poderosa frequência de cura. E é nesse ponto que a menina que brincava de curar, a médica, a esportista, a mulher apaixonada pela natureza e a professora de yoga parecem finalmente se encontrar. “Eu sempre quis ser médica para curar. Hoje acredito que o yoga é uma ferramenta de cura extremamente potente. Quero fazer parte dessa cadeia e não sair desta vida sem plantar também as minhas sementes.”


Depois de percorrer toda essa trajetória, volto a uma imagem que me acompanhou enquanto escutava Mirna contar sua história: a das mulheres que vieram muito antes de nós e que, em diferentes períodos da história, foram perseguidas e condenadas. Entre elas estavam curandeiras, parteiras e mulheres detentoras de saberes tradicionais sobre plantas medicinais. 


Em tempos em que a medicina formal não era acessível à maior parte da população, muitas cuidavam de suas comunidades e transmitiam conhecimentos de geração em geração. Saberes que, em determinados contextos, despertavam desconfiança e confrontavam estruturas de poder social e religioso. Encontro muitos pontos de conexão entre essa memória ancestral e a história de Mirna. Não por uma equivalência literal entre experiências, mas pelo fio que parece atravessá-las: a relação entre natureza, conhecimento e cuidado. Ao ouvi-la, não pude deixar de enxergá-la, simbolicamente, como parte dessa extensa teia de ancestralidade feminina.


Lá no começo de nossa conversa, quando Mirna contou que, ainda menina, misturava plantas no quintal de casa imaginando formas de curar pessoas, animais e tudo o que estivesse ao seu redor, uma memória da minha própria infância imediatamente veio à tona. Eu também enchia um potinho com plantas e água e, junto com meu irmão, saía pelas ruas oferecendo aquela mistura que, na nossa imaginação, tinha o poder de curar. A coincidência me fez pensar, mais uma vez, nesse fio invisível que parece entrelaçar as histórias que chegam até mim pelo Pegadas


Mirna seguiu aquele chamado infantil pela medicina, pelo esporte, pela natureza e pelo yoga até encontrar sua própria maneira de plantar sementes pelo mundo. Eu percorri outros caminhos até chegar aqui, escrevendo e recolhendo essas histórias. Talvez seja justamente isso que tanto me encante nessa jornada: descobrir que histórias aparentemente tão particulares carregam pontos de encontro inesperados. Como se cada pessoa trouxesse consigo um fio e, a cada nova pegada, eu pudesse reconhecer um pedaço de mim enquanto, pouco a pouco, nossas histórias vão se integrando em um mesmo tecido.



 
 
 

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